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27.3.12

Monalisa, personagem de novela inspirada no sucesso da cabeleireira Dona Zica do Beleza Natural



Apesar da TV Globo não falar nada, ficar na miuda, não admitir nem ter a moral de assumir, meio que tá na cara que a personagem Monalisa da nova novela Avenida Brasil é inspirado na história de sucesso da Dona Zica cabeleireira, afrodescendente, ex-empregada doméstica, que inventou o processo de relaxamento de cabelos rebeldes que deu origem a rede de salões Beleza Natural.

Vai vendo a historinha que a emissora e a atriz divulgaram no site da novela: Inspirada na própria história, Heloísa Périssé vai viver uma 'paraibana arretada'. A rima bate de frente se pam pra confundir a mente da banca que conhece a história de exemplo e empreendorismo da Dona Zica, tipo, tirando o corpo fora quase empurrando os nordestinos pra trombar com os afrodescendentes. Mas o resumo publicado revela a milhão:
Trabalhadora, Monalisa vai ser uma cabeleireira boa-praça. Fã de roupas justas e coloridas, a paraibana arretada cria uma fórmula de sucesso para alisar o cabelo das clientes.
Na entrevista com a atriz conversinha continua, passando longe de cabelo pixainho e cacheado.
Heloisa Perisse: “A Monalisa é uma mulher muito amorosa, com uma alma nordestina guerreira, de quem vem em um pau de arara disposta a vencer e não mede esforços para isso. Me identifico muito com ela, porque também vim do Nordeste, sou de Salvador. Também vim com um sonho, um objetivo e fui ultrapassando as dificuldades e subindo os degraus. Acho que a personagem vai ser muito acolhida, porque as pessoas gostam de quem passa uma história de esperança. No inconsciente coletivo, gera aquela certeza, de que se ela conseguiu, eu também posso conseguir (...) Eu e a Fabíola (a atriz Fabíola Nascimento) fizemos um curso de cabeleireiro. Aprendemos os truques da profissão. Os cabeleireiros fazem tudo ao mesmo tempo. Sou muito cara de pau, vou fazendo como se já tivesse feito a vida inteira. Está sendo ótimo, já estou fazendo até escova em mim mesma”
Será que a Dona Zica cabeleireira tá ligada no caô? Mas tá valendo, no final a divulgação e merchandising grátis do tratamento de relaxamento de cabelos cacheados para o salão Beleza Natural e seus cosméticos em horário nobre na Globo pode ser comparado a milhões de reais em publicidade. De repente foi por isso, pra não parecer propaganda grátis da Globo pra uma empreendedora brasileira afrodescendente e uma empresa que provoca competição em um mercado dominado por multinacionais e empresas estrangeiras.

Liga que o autor da novela Avenida Brasil, João Emanuel Carneiro, foi quem escreveu a novela Da Cor do Pecado, segundo o estudo A cor do preconceiro : o negro na teledramaturgia brasileira de Alex Santana França publicado na Revista Africa e Africanidades nº11 em novembro de 2010,  vai vendo copy paste de trechos da rima toda:
(...) o nome da novela Da Cor do Pecado (que foi ao ar em 2004) é título de uma música composta por Bororó na década de 1930 e interpretada já por vários nomes da MPB, no caso da novela, quem interpreta a canção é Luciana Melo. Nessa composição se pode localizar claramente a manifestação de preconceito em frases como (...) é um corpo delgado da cor do pecado e [...] a vergonha se esconde porque se revela a maldade da raça [...]. 

Depois o autor ainda escreveu a novela Cobras e Lagartos, de 2006. Nela, destaque para dois personagens, Ellen (vendedora da loja Luxus que pensa apenas em subir na vida) e Foguinho (um malandro que leva a vida à base de mentiras), interpretados respectivamente por Taís Araújo e Lázaro Ramos, que de verdadeiros anti-heróis tornaram-se protagonistas, caindo no gosto do público e ofuscando personagens como Duda e Bel (o par romântico principal da novela) e Estevão e Leona (o casal de vilões antagonistas).

Em 2008, a novela A Favorita, a terceira de autoria de João Emanuel Carneiro, causou polêmica quando foi anunciado que, não só haveria uma família de negros rica, como essa família seria rica porque o pai é um deputado corrupto. Antes disso, o negro já foi representado como bom caráter e como mau caráter, mas é raro ver uma novela com negros protagonistas (outra família negra que chamou muita atenção na época foi a da novela A Próxima Vítima, de 1994). Mais uma vez, João Emanuel Carneiro repete a fórmula de que o negro só consegue ascender socialmente quando é desonesto, reforçando ainda mais os estereótipos que rotulam os negros.
Sentiu o drama? Vai vendo o documentário A Negação do Brasil - O Negro nas Telenovelas Brasileiras  baseado no livro de Joel Zito Araújo.

Antigamente quilombos, hoje periferia. 500 anos de extermínio.


-> Arquivo: 12.1.2012 : Salão da Dona Zica cabeleireira Beleza Natural no Facebook
-> Arquivo: 4.1.2012 : É Globo mas é brazuca
-> Arquivo: 25.10.2011 : A febre das filhas da Janete no YouTube
-> Arquivo: 6.10.2011 : TV mostra escravos nordestinos explorados pelo Governo de São Paulo para construir escolas
-> Arquivo: 1.8.2011 : Thaide entrevista Mano Brown na TV
-> Arquivo: 1.8.2011 : Re The revolution will be webified
-> Arquivo: 18.7.2011 : Sites de TV a cabo pela internet com pay per view de futebol e BBB
-> Arquivo: 23.8.2006 : Indenização por crime de racismo: Justiça condena supermercado a pagar R$ 60 mil
-> Arquivo: 23.8.2006 : Relatório da ONU sobre racismo no Brasil
-> Arquivo: 8.6.2006 : Beleza Natural, a ex-empregada doméstica que virou empresária
-> Arquivo : 8.11.2005 : TV da Gente, Racionais e Netinho representando
-> Arquivo: 14.7.2005 : Reparações aos descendentes daqueles que sofreram com a escravatura, sequestro e trabalhos forçados
-> Arquivo: 26.4.2005 : MV Bill no Roda Viva da TV Cultura
-> Coletando : Livraria Cultura: A negação do Brasil. O negro na telenovela brasileira. e Uma história não contada. Negro, racismo e branqueamento em São Paulo.
-> Coletando : Mercado Livre : Busca : TV, Cabelos e Novela

30.11.11

O futuro está nos games

mario blogher10 nintendo 3

Thread sobre games na Lista Radinho em 2002:

O futuro esta nos games

04.03.2002 - Falai' fabio, radinhos,

Fabio Costa wrote:
Na próxima, prometo ser mais veemente. Mas pode escrever ai: o futuro está nos games!
Ta' ligado q milidias neguinho de pesquisa gringa dilvulgou q, dentro da industria de entretenimento, em termos de faturamento, o setor de games ja' ta' metendo os canos no cinema, q agora come terra na segunda posicao.

Se pam nao e' futuro, bacanas da nintendo, ps2, xbox e o bonde dos desenvolvedores ja' partiram pra dentro e e' daquele jeito :-)

Lembra o centenario do cinema? Vai vendo, se pam qdo a midia interativa, da qual os games sao a vanguarda, fizer 100 anos neguinho vai eleger os classicos tipo assim:

Asteroids = A conquista da Lua (Melies)
Mist = Encouracado Potenkim
Mario Brothers = Carlitos
Doom = O nascimento de uma nacao
Titanic (maior bilheteria do mundo) = Tamagochi

Sentiu firmeza? O paguei comedia? :-D

\//
Tupi


Re: O futuro esta nos games

04.03.2002 - Msg de Oghh

E jah nao eh assim? :)

Aqui no Brasil já tem algumas empresas desenvolvendo games, a do Outlive, por exemplo, já lançou o jogo até lá fora. Tem o jogo do ET de Varginha, uma empresa de goiania vai lançar um MMORPG (Massive Multiplayer Online Role Playing Game), um daqueles jogos onde um monte de jogadores constrói um personagem e desenvolve ele por um tempão.

Não está longe de ter uma revolução nessa área, tipo o The Sims :)

Da’ para o ciberespaço do William Gibson é só um pulinho.

O meu sonho de consumo, antes do advento da web, era ser Produtor de uma empresa desenvolvedora de games. Se possível, dono, mas aceito até só roteirista!

Oggh


Re: O futuro esta nos games

04.03.2002 - Msg de rene

pois eh, justica seja feita: games sao um universo riquissimo. nunca fiz. tiro o chapeu pra quem desenvolve. eh pra fazer qqer arquitetura de informacao ou design pra web parecer cafeh pequeno.

fica a pergunta: se games sao uma industria assim tao poderosa, se eles sao tao envolventes e apaixonantes, por que despertam um interesse menor da midia e da "academia"? serah que eh porque parecem coisa de crianca?

abraco
rene


Re: O futuro esta nos games

04.03.2002 - Msg de Fabio Costa

Pagou não, mano! :-)
Usando o seu paralelo, o 'mundo' dos games também tem o seu Oscar. Essa indústria é levada muito mais a sério do que a gente pensa.

Infelizmente ou felizmente, os anunciantes estão cada vez mais dentro também.


Re: O futuro esta nos games

04.03.2002 - Msg de Castle

So aqui no Brasil que game e visto como coisa de crianca e/ou NERD!

Concordo plenamente com vc Renes.... game e o apice de interavidade/ programacao/ design/ usabilidade e outros bichos!

Qto a Academia eles tem que julgar pelicula mesmo... julgam games qdo esses viram filmes, mas ai geralmente so ganha Fx ...mas ja ta bom!

Castle
PS: The bomb has been planted!


Re: O futuro esta nos games

04.03.2002 - Msg de Oghh

Acho que o Rene falou de academia no sentido de uma associação de produtoras de games.

Particularmente eu acho que games são sim uma indústria de futuro, e conforme a tecnologia vai sendo distribuída, teremos mais e mais produções de qualidade.

Agora, lá fora mesmo games tbem são visto como coisas de criança/nerd, só que tem gente ganhando dinheiro com isso :)

Um exemplo de negócio relacionado a games que está dando certo no brasil?
Lan houses. Alguém notou a proliferação de monkeys? Pois é...

Quando o negócio começa a dar dinheiro, os olhos gananciosos se voltam para ele. Quem sabe alguma empresa brasileira não resolva investir na produção de games?

Oggh


Re: O futuro esta nos games

04.03.2002 - Msg de marcelo siqueira

do texto do fabio:
They don't take kindly to marketing people shoving a blatant product
placement into their games. They see themselves as Francis Ford Coppola, and you're not going to see the Godfather order a Domino's Pizza."
infelizmente, parece que essa inocência só existe porque a indústria está realmente na infância. outro ponto interessante é o fato de um engine como o genesis3d ser oferecido como open source.
qual será a vantagem? apenas o desenvolvimento espontâneo, como no caso do linux?
e a concorrência?
será também parte da "inocência"?

( )'s
marceloSiqueira()


Re: O futuro esta nos games

04.03.2002 - Msg de Castle

O unico game que sei que virou por aqui foi o do Tio Silvio e tb o do povo
da Continuum http://www.continuum.com.br que fizeram na MAO e o jogo eh show!
INFELIZMENTE ainda nao dah pra parar tudo por no minimo seis meses e soh fazr game.

Mas game ainda eh visto como coisa de crianca/nerd...tah longe de ter eventos como a Eletronic Game, aqui as revistas do setor vivem momentos dramaticos... o Hardmob (site que abrigava varios servidores de jogos on line) quase foi pro saco e os eventos de Games multiplayer QUASE nao rolam por falta de patrocinio!

Qto a pirateacao ate concordo que pesa, mas pra jogos multiplayer vc tem que ter o SERIAL ORIGINAL senao nao joga pela WEB.

IMHO, as Lan house vao ser como foram paintball, pistas de patins in roller, karts e agora os bingos! As que sao feitas por quem ENTENDE da coisa e sobretudo GOSTA sempre terao publico... as vezes nicho, as vezes bombado... os que encaram APENAS como negocio podem ate ganhar uma grana, mas por um tempo....

Pra vc verem como GAME eh um negocio serio pacas:
www.swafo.com/frozendeath/cheaterlow.wmv

()'s
Castle


Re: O futuro esta nos games

04.03.2002 - Msg de Castle

O Jogo do Milhao EH game sim...e vai muito bem...

E pensar que eu podia ter feito o game e ainda com participacao sobre vendas! :-(

Eh no minimo uns 6 meses pra criar, storyboard, roteiro, modelar em 3D/desenhar, programar, tirar bugs, etc!

Das vendas de CS sei que ta entre os 5 mais vendidos, perde pros lancamentos da Micromole (ALWAYS), mas vende bem...

Sei de umas iniciativas em Director que rolaram... uns pela Manufactura de Web...o Bco imobiliario em CD-ROM, um de corridas usando o engine 3D bancado pela AOL/FIAT/Itau/Estadao. Mas qdo vc apresenta o orcamento pra um game decente os clientes preferem programar banner em portal!

Castle

PS: Taking fire, need assitance!


Re: O futuro esta nos games

04.03.2002 - Msg de Guilherme Ambros Pereira

Fala Tupi,

Concordo plenamente contigo. Games são, IMHO, uma das grandes tendências de comunicação para o futuro. E não tem nada de estranho nisso: com o aumento do poder de processamento e do realismo gráfico, vc passa a assistir um filme na tv, só que com a vantagem de poder interagir com o filme e com dezenas de outros "telespectadores" que estão lá, ao mesmo tempo que você, conversando, disputando, lutando, fazendo alianças, derrubando monarquias, etc.

A fórmula é conhecida: una pessoas, dê um motivo e faça com que interajam entre si. Os mud's via telnet já faziam isso no início dos anos 90, quando a internet brazuca estava apenas despontando nas universidades. Depois a formula foi repetida à exaustão, com novas sofisticações e evolução das plataformas (Worlds Chat, Active Worlds, The Palace, games multiplayer, etc). E a fórmula vem dando certo, saindo do gueto de rpg-maníacos e tomando as ruas.

Some-se a isso o crescimento rápida do realismo nos games, onde fica cada vez mais difícil distinguir um jogo de um desenho animado, por exemplo. E, não raro, vc chega-se até mesmo a confundir com um filme de fato. Se compararmos o estágio atual ao telejogo e atari dos anos 80, ou ao Super Nintendo dos anos 90, verá que a velocidade do crescimento do poder de processamento e realismo gráfico é algo impressionante. Imagina só o que não teremos na área de entretenimento em mais 10 ou 20 anos...

Pra quem gosta do tema, tem um case maravilhoso que eu não me canso de reler ao longo dos anos. É sobre o Habitat, o primeiro (bem sucedido) mundo virtual da história da humanidade, e que esteve (muito) a frente do seu tempo enquanto existiu (de 85 a 88). Leitura imprescindível.

O primeiro link é o mais importante pois conta a história, mas os outros também são riquíssimos. O "Habitat Anecdotes", em especial, é muito curioso. Inflação, jornais publicados pelos usuários, casamentos, duelos, tours, crime, governo e política são alguns dos temas vividos pelos usuários do Habitat.

http://scara.com/~ole/literatur/LessonsOfHabitat.html
O artigo pai de todos. Esse site não é o oficial do Farmer & Morningstar, mas como o paper é um clássico, tem centenas de sites com cópias iguais e na integra)

http://ibiblio.org/dbarberi/papers/vcomm
Vários artigos relacionados sobre o tema, que também contam a experiência do Habitat. Contém o "Habitat Anecdotes".

http://www.stanford.edu/class/history34q/readings/Virtual_Worlds/Habitat.html

Textos mais "recentes", já questionando a criação de uma  "Global Cyberspace Infrastructure"

Power to the people! E longa vida aos games :-)

Um abraço,
Guilherme Ambros


Re: O futuro esta nos games

05.03.2002 - Msg de gustavo

Eu acho que o futuro dos Games está na simulação de situações quotidianas, na criação de uma realidade paralela virtual, uma tela entre nossos olhos e o mundo, um óculos escuro ativo.
Aliás, essas aplicações movimentam muitíssima grana nos EUA.
Na USP tem aquela sala semi-esférica tipo 360º, que você vai andando e os projetores vão "andando", mudando as projeções na parede. Tudo feito com esses códigos de simulação espacial (dificílimos) de games.

Gustavo


Re: O futuro esta nos games

05.03.2002 - Msg de gustavo

Cyberespaço não seria um espaço virtual? Penso numa fundição entre em mœltiplos espaços virtuais e o real, um multi-pensamento-processamento. Onipresença.

Xi, bateu.


Re: O futuro esta nos games

05.03.2002 - Msg de Oggh

Tipo um alt+tab da realidade?

Hmm, pode ser. Mas jah pensou na zona, cada um em uma frequencia?

:)

Oggh


Re: O futuro esta nos games

05.03.2002 - Msg de telo

É a nova droga... um tipo de alucinógeno.... realidade alterada.... simulação de situações... vivenciar o impossível.
Um prato para a psicologia e a psiquiatria.

Telo


Re: O futuro esta nos games

05.03.2002 - Msg de Castle

Nossa colou o releh! :-)

Lembro de um conto do Assimov que era mais ou menos:

Os humanos perguntavam a um computador se Deus existe.
O computador disse que precisava de outros computadores pra responder...
Construiram os computadores, ligaram-nos entre si e pergutaram de novo. Deus existe?
O computador respondeu: - AGORA existe!

:-O

Oia que isso foi em 1900 e Aracy de Almeida!

abracos
Castle


Re: O futuro esta nos games

05.03.2002 - Msg de fábio fernandes

Oi, Ricardo!
Na verdade, esse conto é do Frederic Brown, e foi republicado naquela coletânea ótima da L&PM, "Máquinas que Pensam", editada pelo Asimov. É sensacional mesmo!

abraço,
fábio fernandes


Re: O futuro esta nos games

05.03.2002 - Msg de Oggh

(Strange Days) Eh um filme com a Julliete Lewis sobre um dispositivo capaz de guardar emoçoes/experiencias e reproduzir "dentro" do cérebro do usuário todas as sensações gravadas.

Se um cara grava o seu "sinal cerebral" sob o efeito de crack, digamos, o usuário vai poder experimentar as sensações SEM fumar o crack propriamente dito, entendeu?

Tem uma cena de um cara q compra um disco de uma garota tomando banho, para ter as mesmas sensações q ela.

O conceito eh bacana, recomendo.

Oggh


Re: O futuro esta nos games

05.03.2002 - Msg de Oggh

Estranhos Prazeres.

Lembrei!

O futuro estah nos games, nos modificadores de percepcao, nos receptores e transmissores cerebrais. Etc!

Oggh


Re: O futuro esta nos games

05.03.2002 - Msg de marcelo siqueira

em outro livro, "holy fire", o sterling descreve sites da internet
justamente como espaços de realidade virtual, onde as pessoas se encontram usando equipamentos especiais. viajam pelo mundo através de presença virtual etc.
coisas que devem rolar em algum tempo.
por enquanto ficamos com o chat de avatares mesmo :)

( )'s
marceloSiqueira ()


-> Arquivo: 14.11.2011 : Nossa língua brasileira
-> Arquivo: 4.8.2011 : Street Fighter capoeira
-> Arquivo: 1.8.2011 : Re: Técnicas nazistas na publicidade
-> Arquivo: 1.8.2011 : Re: The Revolution Will Be Webified
-> Arquivo: 1.8.2011 : 3 conselhos que me deram quando comecei
-> Arquivo: 20.7.2011 : História do Tupi da Taba Parte 1 (1995 a 2000)
-> Arquivo: 15.7.2011 : Ticket 171
-> Arquivo: 7.7.2011 : Guetostar, de volta eu tô no rap
-> Busca no Mercado Livre : Games, Nintendo, The Sims, Playstation e Tablet

9.8.11

Re: Carta Capital - Brown, o mano charada

Mano Brown em A Família convida - Sta. Bárbara

Thread sobre hip hop na Lista Radinho. Publicado originalmente no wiki Tabadotupi.tk

Re: Carta Capital - Brown, o mano charada

29.09.2004 - Falai' Fabiano, Kuja, Mau, Radinhos,
Fabiano repassou:
Cartacapital.terra.com.br/site/exibe_materia.php?id_materia=1730
Tb trombei com essa materia de capa da Carta Capital, liga q a revistinha acompanha o movimento milianos, na levada da economia e do social. Tipo, no lancamento do CD Nada como um dia apos o outro dia, uma tiazinha da revista colou no show de lancamento (num galpao industrial na ZL) e versou uma reportagem. Nessa materia mais recente, a reporter ficou no sapatinho, fez um catado de entrevistas anteriores e da rima q o Brown gravou no CD do KLJay.

Liga q o maluco e' anti-midia e se pam, por isso mesmo, midiatico ate' umas horas. Dois palitos, tem o dom de vender mais revista, daquele jeito. Mas paguei um pau mesmo pro texto q saiu na versao impressa da materia, com uma tiazinha psicanalista da USP, q se jogou num paper bem louco, vai vendo:

www.geocities.com/HotSprings/Villa/3170/Kehl5.htm

Trechos:
As Fratrias Orfãs, por Maria Rita Kehl

(...)
Acontece que os Racionais não estão interessados nem em reinar sobre a miséria (o que seria isto? uma forma mais sedutora de dominação?) nem em esconder a miséria para inglês ver. Seu público alvo não é o turista - são os pretos pobres como eles. Não, eles não excluem seus iguais, nem se consideram superiores aos anônimos da periferia. Se eles excluem alguém, sou eu, é você, consumidor de classe média - "boy", "burguês", "perua", "babaca", "racista otário" - que curtem o som dos Racionais no toca-CD do carro importado "e se sente parte da bandidagem" (KL Jay). Ou seja: não estão vendendo uma fachada de malandragem para animar o tédio dos jovens de classe média.
(...)


Na mesma revista, tem uma matéria sobre a Tati Quebra-barraco, e diferente da Veja, e do resto da midia de massa, uscambau, a mina da Carta Capital teve o dom de replicar as letras dos funks sem cortar palavrao, teve o dom!

Liga q a fita carioca pra mim tb e' hip hop, e a gringaiada tb se jogou em sacudir o popozao. Milidias trombei com essa entrevista de um DJ alemao no multiply:
www.multiply.com/journal/item/4?last_read=1

Ich bin feia mas to na moda :-D

Fui, nem me viu!

|//
Tupi

Re: Carta Capital - Brown, o mano charada

29.09.2004 - Msg de Volponi

Fenomenal esse texto, tupi. Joga algumas luzes muito interessantes sobre
o "movimento do movimento", os manos criando sua irmandade para
sobreviver neste mondo cane.

É de "pagar pau".

[]'s
volponi


Re: Carta Capital - Brown, o mano charada

29.09.2004 - Msg de Charles

volponi escreveu:
Fenomenal esse texto, tupi. Joga algumas luzes muito interessantes sobre o "movimento do movimento", os manos criando sua irmandade para sobreviver neste mondo cane.

Trechos que me chamaram a atenção:

Agora é diferente. A esquerda talvez ainda não saiba o que fazer, ou o que propor, para os milhares de rappers que, liderados pelo Mano Brown, parecem interessados em radicalizar um discurso contundente de oposição.
Mas os "manos" têm uma idéia um pouco mais precisa de sua revolução, a começar pelas armas: sua palavra em primeiro lugar. Em seguida, sua "consciência", sua "atitude"- expressões empregadas insistentemente nas letras dos Racionais, e que em termos gerais significam: orgulho da raça negra e lealdade para com os irmãos de etnia e de pobreza.

(...)

O tratamento de "mano" não é gratuito. Indica uma intenção de igualdade, um sentimento de fratria, um campo de identificações horizontais, em contraposição ao modo de identificação/dominação vertical, da massa em relação ao líder ou ao ídolo. As letras são apelos dramáticos ao semelhante, ao irmão: junte-se a nós, aumente nossa força.

Vá um decendente de alemães (alemães que vieram para o país no século XIX, logo muito antes do nazismo) defender orgulho de raça e tal tipo de união... Logo vai aparecer alguém me acusando de nazista.

"Ah, mas eles são pobres, tem que lutar contra a injustiça!"

Sim, são, mas aqui onde eu moro também há muitos brancos, mulatos, negros, índios, etc, etc, etc pobres.

Eu simplesmente olho essa conclamação à união por critérios de raça que o Racionais faz e penso em uma coisa: fascismo.

[]'s
Charles
O livro é o ícone da liberdade - Jorge Froes

Re: Re: Carta Capital - Brown, o mano charada

29.09.2004 - Msg de Tupi Namba

Falai' Charles,

Liga nois:

"Preto e branco pobre se parecem mas nao sao iguais."
Racionais MC's

"O problema nao foi o dia 13 de maio, mas o dia 14."
Arany Santana dos Santos, Secretaria da Reparação Racial de Salvador/BA

"O rap e' a CNN dos pretos'
Public Enemy

Sentiu firmeza?

Fui, nem me viu :-)


|//
Tupi

Re: Re: Carta Capital - Brown, o mano charada

29.09.2004 - Msg de Charles

Tupi falou:
Sentiu firmeza?

Não, não senti.

E se é para falar de racismo para mim a única coisa que mata ela é a miscegenação. Não é nem consciência, é o fim das etnias mesmo.

[]'s
Charles
O livro é o ícone da liberdade - Jorge Froes

Re: Re: Carta Capital - Brown, o mano charada

30.09.2004 - Msg de Kuja

E se é para falar de racismo para mim a única coisa que mata ela é miscegenação. Não é nem consciência, é o fim das etnias mesmo.

assunto explosivo e polêmico (e completamente off-topic)...

o pior é que tanto os argumentos do Charles como os do Tupi são válidos.

o primeiro prega a democracia racial e ataca o racismo invertido de certos grupos extremistas negros.

o segundo entende que a opressão transcende a esfera racial, pois é fruto de uma luta de classes, na acepção marxista do termo.

mas, se eu tivesse que escolher uma posição, eu escolheria a do segundo.

em minha opinião, se formos delimitar a discussão dentro da esfera racial, corremos o risco de ficarmos presos em temas como "afirmação positiva", que não explica nem resolve nada.

a essência do problema continua sendo a luta de classes, não de classes de trabalhadores, mas de classes sociais.

e, neste quesito, estamos mal. muito mal.

não temos a chamada cultura de participação.

o Brasil precisa recuperar um enorme tempo perdido.

precisamos criar cooperativas de trabalhadores.

micro-créditos para pequenas iniciativas.

co-gestão em fábricas.

missões educativas.

frentes de saúde pública.

mídia alternativa (real, não simulacros)

enfim... o rap paulista, com todos os ranços machistas e importações de postura "gangsta", ao menos aponta para esses caminhos.

é pouco. muito pouco.

mas é alguma coisa.

kuja

Re: Re: Carta Capital - Brown, o mano charada

30.09.2004 - Msg de Maratimba

é pouco. muito pouco.
mas é alguma coisa.

salve kuja,

agora esse diazinho ruim pelo menos tem algo interessante pra pensar no cafe...

lembrei na hora dessa frase

"O Terceiro Mundo vai explodir! Quem tiver de sapato não sobra..."

Alguem conhece?

maratimba


Re: Re: Re: Carta Capital - Brown, o mano charada

30.09.2004 - Msg de m.

Alguem conhece?

Ê
o bandido da luz vermelha , o filme.

tb tem em rubro zorro, do ira!

m.


Re: Re: Re: Carta Capital - Brown, o mano charada

30.09.2004 - Msg de Tupi Namba
Kuja analisou:
(o Tupi) entende que a opressão transcende a esfera racial, pois é
fruto de uma luta de classes, na acepção marxista do termo.
Falai' kuja, radinhos,

Mil graus o mano Kuja rimando uma analise e a sugestao de uma pa' de fitas pra fazer o adianto dessas tretas aqui em pindorama, tipo desde milianos, 500 anos de exterminio, uscambau.

Mas vai vendo, se pam o bagulho nao e' so' luta de classes, materialismo dialetico, uscambau. Tipo, to ligado q a escravidao do sec. XVI - XIX pode ser um modelo economico pre industrial, mas liga q o modo de operacao e a ideologia rodava em cima de uma base racial. Sangue nos olhos pra escolher quem ia ser encarado como ser humano ou mercadoria, a logica virava so' em cima da cor da pele. 1-2 tava na cara quem ia entrar nesse sistema usando chapeu marreta e quem ia estralar chicote, daquele jeito.

Tipo, se pam esse esquema cabuloso e' lado a lado com a tragedia do holocausto da segunda guerra. Q ate' podia ter base politico-economica mas foi cruel ate' umas horas. Entender a heranca da diaspora africana, sequestro, cativeiro, trabalhos forcados, exterminio, uscambau so' como treta luta de classes, economia... ai' ficou pequeno.

Liga q o mundo civilizado deu um trampo grandao pra tentar reparar a injustica do holocausto, onu,
nuremberg, pa' e tal. Ate' hoje tem disque denuncia pra caguetar qq ex-gambe q participou daquela paradinha sinistra. Ligou, dois palitos o mossad tem o dom de enquadrar, vai vendo:

Operation Last Chance
www.wiesenthal.com/social/press/pr_item.cfm?ItemID=6011

Sem miseria.

Entao, o estado e a elite economica q assinou canetinha na diaspora africana, ate' hoje da' fuga, passa um pano, mas nem de querer justica e puxar cadeia por um crime contra a humanidade. Vai vendo, tem uma historinha de q o historico e o registro da entrada, transacao, obitos, biometria, etnia, uscambau, de todo o fluxo do trafico escravista era bem documentada e detalhada a milhao. Assim q deixaram pra princesa decretar a lei aurea, tiozinho do governo imperial mandou queimar tudo, pagando uma de q nao ia dar chance pra pedido de indenizacao dos proprietarios (para patrao fazendeiro a lei era desapropriacao, intervencao do estado contra o direito de propriedade), mas se pam tb era pra atrasar o lado da inclusao e resgate de quem era vitima de verdade.

Milianos, assistindo "E o vento levou", vi uma cena representando o pos-guerra civil americana, onde um personagem pagando uma de agiota, segurava uma placa "3 acres and a mule" na frente de uma fila de ex-escravos recem libertados. "3 acres and a mule" tb e' o nome da correria do Spike Lee, entao, dei uma busca no Google e achei a historinha dessa rima. Vai vendo, tinha um general nortista invocado ate' umas horas. Qdo derrotou uma goma sulista, na treta toda cresceu o olho no fazendeiro adversario mais feroz. Dois palitos, mandou libertar todos os escravos, e ainda dividiu a terra e os animais no esquema "3 acres and a mule" pra cada familia q fazia o trampo forcado naquela fazenda do ex-inimigo. Ligeiro a fita toda prosperou, e a concorrencia com os outros produtores playboys, deixou uma pa' de tiozinho no veneno. O fim dessa historia nao contrariou a estatistica, depois anos, com os mortos na guerra comendo vitamina debaixo da terra, a elite trocou uma ideia e o juiz aceitou o pedido de reintegracao de posse do latifundiario, daquele jeito.

Aqui em pindorama, se pam enquanto tiozinho fingia pagando uma de inocente, forrava o malote com politica de imigracao apoiada e subsidiada pela elite e pelo estado. To ligado q uma pa' de imigrante q vinha do hemisferio norte, nem pagava passagem e se pam ate' recebia lote financiado. Hoje, dando um piao nas metropoles tupiniquins, toda a mao a gente tromba com o resultado do bolinho etnico racial, q tanto pode pagar uma de diversidade e tolerancia como ao mesmo tempo de resultado de injustica e preconceito. Antigamente quilombos, hoje periferia. 500 anos de exterminio, demorou!

Fui, nem me viu.

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Tupi


Re: Re: Re: Re: Carta Capital - Brown, o mano charada

30.09.2004 - Msg de MaGioZal

Tupi escreveu:
registro da entrada, transacao, obitos, biometria, etnia, uscambau, de todo o fluxo do trafico escravista era bem documentada e detalhada a milhao.

Pelo o que sei quem mandou fazer isso foi o Rui Barbosa, que curiosamente é mais lembrado positivamente por aí como "A águia de Haia"...

Essa queima de documentos foi algo realmente lamentável, porque cortou com machado o link que os descendentes de africanos escravizados no Brasil poderiam ter com as origens de sua história. Tanto é assim que negros brasileiros dificilmente é possível ir além do nível de bisavô na sua documentação...

A África, da mesma maneira que a Europa, era cheia de nações, línguas, religiões e culturas diferentes entre si, embora por aqui os brancos sempre qualificassem todos como meramente "negros"...

De repente se os documentos históricos do tráfico negreiro estivessem disponíveis, talvez fosse possível para os afro-descendentes traçar a origem de seus antepassados. Mas hoje em dia, graças a Rui Barbosa, essa é uma tarefa dificílima, quiçá impossível.

MaGioZal
blog individual mondo-exotica.net/magiozal/
blog coletivo blog.lugaralgum.com/
fotolog fotolog.net/_magiozal/

Re: Re: Re: Re: Re: Carta Capital - Brown, o mano charada

05.10.2004 - Msg de Tupi Namba
MaGioZal falou:
A África, da mesma maneira que a Europa, era cheia de nações, línguas, religiões e culturas diferentes entre si, embora por aqui os brancos sempre qualificassem todos como meramente "negros"...
Falai' Magiozal, radinhos,

Liga q e' cruel ate' umas horas, mas se pam no sistema escravagista, os proprietarios e a sociedade incluida reconheciam a milhao as diferencas entre uma pa' de nacoes e etnias africanas uscambau. Vai vendo, no livro Casagrande e Senzala, tiozinho Gilberto Freyre, q era herdeiro de senhor de engenho, cagueta uns esquemas onde bacana dividia as etnias conforme a pretensa aptidao de cada uma pras correrias. E se ligavam em atrasar o lado nunca deixando a senzala dominar com a banca de uma so' nacao, lingua ou costume. Vai vendo, servicos domesticos, cozinha, capinagem, derrubar mata, mexer na garapa, carpintaria, tudo era dividido daquele jeito entre bantus, nagos, zulus, angolas, fulas, jejes, pa' e tal. Cada um, cada um. E' embacado ou nao e'?

Tipo, tem tb gravuras de Debret, com retratos das diferentes nacoes e seus aderecos, figurinos, tatuagens e cicatrizes ritualisticas ou forcadas, q milianos identificava quem fazia o corre aqui em pindorama. Tiozinho Ruy Barbosa comandou a fogueira q queimou toda a papelada, mas ligeiro imperio e republica tiveram o dom de passar um pano na identidade e qq referencia entre as nacoes. 500 anos de exterminio, antigamente quilombos, hoje periferia. E' muita treta.

Fui, nem me viu!

|//
Tupi


Re: Re: Re: Re: Re: Re: Carta Capital - Brown, o mano charada

05.10.2004 - Msg de r'

li em algum lugar que um dos modos de garantir que a
"viagem" do navio negreiro seria "sem incidentes" era
misturar tribos que nao falassem a mesma lingua.
assim nao podiam se organizar.

profissas, os caras

r'

-> Arquivo: 4.8.2011 : Street fighter capoeira
-> Arquivo: 4.8.2011 : Re: Técnicas nazistas na publicidade
-> Arquivo: 1.8.2011 : Re: The Revolution Will Be Webified
-> Arquivo: 1.8.2011 : Thaide entrevista Mano Brown na TV (Capão Redondo)
-> Arquivo: 20.7.2011 : História do Tupi da Taba Parte 1 (1995 a 2000)
-> Arquivo: 14.7.2011 : Racionais MC's e Mano Brown (fake) no Twitter
-> Arquivo: 7.7.2011 : Guetostar, de volta eu tô no rap
-> Arquivo : 16.12.2005 : Sou feia mas tô na moda, documentário de Denise Garcia
-> Arquivo : 18.10.2005 : Entrevista de Mano Brown sobre armas e desarmamento para o Jornal Agora
-> Arquivo: 26.4.2005 : MV Bill no Roda Viva da TV Cultura
-> Busca no Mercado Livre : Rap, Racionais, Smartphone, Grafite, Tablet e DVD de Rap

23.8.06

Relatório da ONU sobre o racismo no Brasil

Liga nóis matéria ano passado no jornal O Estado de São Paulo com salve da ONU - Organização das Nações Unidas, sobre a treta racial de milianos aqui em pindorama. Sente o drama:
Aumenta o fosso entre negros e brancos
19/11/2005 - Ricardo Westin, Colaborou: Robson Pereira

Conclusão faz parte de relatório das Nações Unidas sobre racismo no País

Se existissem dois Brasis, um só com brancos e outro só com negros, o primeiro estaria, no quesito qualidade de vida, ao lado de países europeus relativamente desenvolvidos, como Bulgária e Letônia. O Brasil dos negros, por outro lado, ficaria próximo de países muito pobres, como o Vietnã e a Bolívia.

Esse persistente fosso entre brancos e negros é a principal conclusão de uma edição especial do Relatório de Desenvolvimento Humano a respeito do racismo no Brasil. O trabalho, realizado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), teve como base estudos realizados no País nos últimos anos sobre o assunto. A divulgação ocorreu às vésperas do Dia da Consciência Negra, que será comemorado amanhã. Em 2002, o Brasil ocupava uma posição intermediária no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Pnud, que considera três fatores fundamentais de qualidade de vida: renda, esperança de vida ao nascer e nível de educação. Num universo de 177 países, estava em 73º lugar. Se no Brasil vivessem só os brancos, o País estaria em 44º lugar. Se houvesse apenas os negros, em 104º lugar – considerável distância de 60 posições.

O fosso fica ainda mais profundo quando se separam os Estados. A melhor qualidade de vida têm os brancos do Distrito Federal – vivem tão bem quanto na República Tcheca (33º lugar no ranking mundial). No outro extremo, estão os negros de Alagoas – vivem na mesma precariedade que a população da Namíbia (122º lugar no ranking). "A democracia racial no Brasil é um mito. Os efeitos da escravidão permanecem até hoje", afirma José Carlos Libânio, assessor do Centro Internacional de Pobreza do Pnud. O Relatório de Desenvolvimento Humano também mostra a discriminação racial por meio de indicadores socioeconômicos. O número de pobres (com renda per capita inferior a R$ 75,50) no Brasil diminuiu 5 milhões entre 1992 e 2001. Os negros, porém, foram levados na contramão: o número de pobres cresceu 500 mil. Ainda no caso deles, o desemprego é maior e o salário é menor – invariavelmente.

Violência e Educação

Na educação, apesar de os índices brasileiros terem melhorado sensivelmente, os negros ainda estudam menos que os brancos. Eles ficam, em média, 2,1 anos a menos que os brancos nas salas de aula. "Estamos falando só da questão quantitativa. Se falássemos da qualitativa, a situação seria muito pior. Normalmente os negros estudam em escolas ruins, com pouca ou nenhuma estrutura, sem professores qualificados, na periferia das cidades", diz Diva Moreira, editora do relatório.

A tendência se repete quando se trata de segurança. Ser negro significa ser o alvo preferencial da violência que resulta em morte. E também, pelo menos no caso do Rio, a maior vítima da polícia. "Em todos os indicadores sociais possíveis e imagináveis, a situação é a mesma. Se o indicador é negativo, os negros são maioria. Se o indicador é positivo, eles são minoria", resume Rafael Osório, do Centro Internacional de Pobreza do Pnud.

O relatório foi apresentado dia 18/11/2005 no Capão Redondo, um dos bairros mais pobres e violentos de São Paulo. Das oito pessoas que estavam na mesa de apresentação, só duas eram negras. A pequena presença dos negros em posições de influência no País foi um dos problemas apontados pelo relatório.

Para o coordenador do Observatório Afrobrasileiro, Marcelo Paixão, essas desigualdades deveriam ter sido enfrentadas há pelo menos 70 anos. "Esse é o tamanho do atraso para um País que foi o último nas Américas a abolir a escravatura e passou o século 20 sem políticas de integração para afrodescendentes. No máximo, fez políticas globais achando que atenderia todo mundo, o que evidentemente não aconteceu."

É muita treta!
Tipo aquela rima dos Racionais: "Preto e branco pobre se parecem mas não são iguais".

Antigamente quilombos, hoje periferia. 500 anos de extermínio.

-> Arquivo: 15.5.2006 : A não representação dos afro-descendentes na História do Brasil
-> Arquivo: 24.4.2006 : Marcelo Paixão da ONG Observatório AfroBrasileiro, entrevista no Estadão
-> Arquivo: 6.3.2006 : Faculdades Zumbi dos Palmares
-> Arquivo: 1.2.2006 : Projeto Terra Negra Brasil - Financiamento agrário para afro-descendentes
-> Arquivo: 4.10.2005 : Cotas para afrodescendentes nas empresas e corporações
-> Arquivo: 24.8.2005 : Arnaldo Jabour x MV Bill no Flip 2005
-> Arquivo: 14.7.2005 : Reparações aos descendentes daqueles que sofreram com a escravatura, sequestro e trabalhos forçados
-> Arquivo: 11.4.2005 : Uma história não contada
-> Taba : Discursando : Nas Listas : Radinho : Re - Reconhecimento de diferenças rompe desigualdade nas escolas
-> Coletando : Mercado Livre : Busca : Racionais MCs e Candomble
-> Coletando : Livraria Cultura: Livro - Uma história não contada. Negro, racismo e branqueamento em São Paulo.
-> Compartilhando Banners : CDs São Mateus pra vida e Antigamente quilombos, hoje periferia.

13.7.06

Projetos para favelas cariocas e o teleférico de Medellin


metro cable enero 2006 008
Originally uploaded by macrocéfalo.


Liga milidias no suplemento Revista do Jornal O Globo, edição de 30/10/2005, uma pá de arquiteto, engenheiro, urbanista, favelado, artista, intelectual, uscambau trocaram uma idéia. Tipo formando um bonde, rimando a história das favelas no Rio de Janeiro e ligeiro endolando projetos de arquitetura e urbanismo pro adianto dos manos, mandando um salve, vila, beco, puxadinho, pingela, viela. Se virar, virou. Olha a conversa:
Revista O Globo

A visão futurista da favela da Rocinha com elevadores, bondinhos, praças, avenidas, áreas verdes e fachadas multicoloridas, na capa desta edição da Revista O Globo, tem por objetivo provocar a imaginação dos leitores. A foto digital mostra um futuro possível, que se vislumbra na mistura de projetos de arquitetos convidados pela Revista O GLOBO a pensar em soluções urbanísticas para o Rio. Segundo o último censo brasileiro, há 400 mil domicílios (1,6 milhão de pessoas) em favelas no Grande Rio, dos quais 75% (300 mil domicílios, 1,2 milhão de pessoas) estão na cidade do Rio. As maiores vítimas da falta de infra-estrutura e segurança são os moradores dessas áreas. Mas o Rio tem a singularidade de misturar, na sua geografia, tornando ricos e pobres vizinhos. E talvez por isso haja entre os cariocas um maior incentivo ao exercício da solidariedade: interessa também à classe média e aos ricos da Zona Sul a urbanização dos morros que a circundam. A melhoria nas condições de vida nas favelas interessa a todos. E a Revista O GLOBO, nesta edição, dá sua contribuição ao debate.

30/10/2005, Marília Martins, editora

Projetos para a Favela

Arquitetos, urbanistas e engenheiros debatem soluções para a reurbanização dos morros cariocas e defendem a intervenção social do poder público no combate à pobreza e à violência.
30/10/2005, Por Márcia Cezimbra e Tania Neves

Para melhorar a vida no morro, um urbanista precisa antes responder a uma questão simples: o que é uma favela? Isso não foi problema para o arquiteto Manoel Ribeiro, ao ser sorteado entre os vencedores do concurso público do Projeto Favela-Bairro, para reurbanizar o Morro da Serrinha.

- A indignação com as favelas é injustificada porque elas são fruto da estrutura social. O favelado é aquele que, dentro do mercado imobiliário, não resolveu seu problema de habitação. É tão excluído que, por não ter emprego, nem fiador, paga R$350 por um quarto no Pavãozinho, o preço de um quitinete em Copacabana.

Berços do samba e da cultura carioca

Ex-coordenador do Projeto Rio Funk, desenvolvido em 11 favelas, Manoel conheceu multidões de jovens e suas famílias, que, com fé no futuro, faziam cursos de dança e DJ:

- Jovens de talento como Buia, um menino que sonhava ser um DJ quando crescesse, mas entrou para o tráfico e hoje está morto.

Apesar desse "know how" em favelas, Manoel praticamente mudou-se para a Serrinha com sua equipe multidisciplinar. Conheceu todo mundo e traçou uma sociogeografia para depois desenvolver com a comunidade seus projetos:

- A favela tem um forte remanescente de negros, que estão lá desde os anos 40, com jongo e macumba; gente interessante do cais do porto; sindicalistas politizados com espírito e luta e bom jogo nos trâmites políticos; artistas e músicos fundadores da Império Serrano.

Os nordestinos chegaram em bloco de Campina Grande nos anos 80. Não sabiam construir em encostas e se instalaram no topo plano do morro. Nos anos 90, vieram os novos pobres, frutos do desemprego, instalados em quartos de aluguel nos fundos das casas da cidade, à beira da favela. Com esse "mapa", Manoel começou a construir o que a comunidade desejava: quadras espalhadas para jongo, rodas de samba e ensaios de escolas, santuários para cultos espíritas. Transformou lugares bonitos como o antigo templo de molocu (ritual afro de sacrifício de animais) num espaço para festas de 15 anos. Até o lúmpen da meia-encosta, composto por viúvas de traficantes e bêbados, teve suas casas valorizadas por uma nova estradinha.

- Dei sorte porque a Serrinha tem uma identidade cultural. As pessoas sobem o morro para fazer cursos e ir a festas, consomem nos barezinhos improvisados. Para preservar isso, falta o título de propriedade para todos os moradores.

Para a antropóloga Alba Zaluar, do Núcleo de Pesquisa da Violência da Uerj, a maioria das favelas já não tem mais identidade definida:

- As favelas já não são mais de remanescentes de negros. Há uma maioria de nordestinos, de outra cultura e de outras religiões, que vive às turras com os espíritas. O berço do samba está sendo destruído. Depois de uma intervenção que enfrente o desespero de 98% de moradores que não têm ligações com o crime, mas vive entre o terror do tráfico e da polícia, será preciso ensinar nas escolas respeito à civilidade, para que os favelados possam, no mínimo, se tolerar. Os sambistas podem dar aula de tolerância. Eles são as pessoas mais maravilhosas que já conheci. Têm o culto da tolerância, aquela coisa do levanta e sacode a poeira...

Quando se fala o nome da professora Regina Bienenstein, da Universidade Federal Fluminense, nas comunidades já contempladas com projetos feitos pelo Núcleo de Estudos e Projetos Habitacionais e Urbanos (Nephu), que ela dirige, vem uma saraivada de elogios. O motivo? Principalmente o modo como a arquiteta encara a favela.

- A favela é um estoque de moradias com problemas que devem ser tratados. Sem remoção. O caminho é fazer regularização fundiária e urbanística e dar infra-estrutura. A tendência depois é a própria comunidade se auto-regular e passar a coibir os abusos - defende Regina. - O que não pode é o poder público fazer tudo e depois abandonar. Tem que ficar para orientar.

O projeto que está sendo implantado no Morro Lara Villela, em São Domingos, levou meses sendo discutido em assembléias na comunidade. No novo desenho urbanístico, há ruas novas e mais largas e casas de áreas de risco foram retiradas. Para tanto, negociou-se a construção de cinco casas em áreas cedidas por moradores que tinham lotes maiores. A primeira está quase pronta.

O Nephu também está assessorando a comunidade nos pedidos de regularização fundiária dos lotes, num terreno de propriedade da União. Para Regina, a favelização só vai cessar quando houver oferta de moradias regulares, com subsídio para quem ganha até três salários-mínimos:

- As pessoas têm que morar, né?

Elevadores e bondes nos morros para que ninguém mais suba ribanceira todo dia depois do trabalho. Praças e palcos para shows em clareiras abertas nas encostas. Ruas pavimentadas, arborizadas, com redes de luz, água e esgoto, moradias confortáveis, com fachadas multicoloridas. Parece sonho? A Revista O GLOBO convidou arquitetos e urbanistas de várias tendências para debater soluções urbanísticas para melhorar a vida dos cariocas e descobriu que não faltam projetos para transformar as favelas em bairros confortáveis. A capa desta edição é uma fotomontagem da favela da Rocinha, que mistura sugestões de vários especialistas.

Há projetos que ainda estão no papel. Há arquitetos que se recusam a fazer projetos. Mas há outros que já viraram realidade, como é o caso da urbanização do Morro da Serrinha, em Madureira, projeto feito por Manoel Ribeiro, premiado pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil e selecionado para a Bienal de Veneza. O projeto está detalhado no desenho desta página. Ou ainda o programa de reurbanização do morro de São Domingos, em Niterói, feito pela arquiteta Regina Bienenstein, professora da UFF.

Entre arquitetos, urbanistas, antropólogos e historiadores, há um consenso: não existe projeto urbanístico com possibilidades reais de ser implementado no morro sem que haja como pressuposto uma intervenção social forte e urgente do poder público para combater a pobreza e a violência - a do tráfico e a da polícia. Esta é também a opinião de arquitetos que se recusaram a fazer projetos, como Jaime Zettel, Alfredo Brito, professor da PUC-Rio e da UFRJ.

- Quem criou a favela foi o poder público, que, por omissão ou incentivo, deixou que soldados ex-combatentes da Guerra de Canudos, sem teto, ocupassem os fundos do QG do Exército, no Morro da Providência, em 1897. Esta foi a primeira favela do Rio. Portanto, a favela é a expressão urbanística da dívida social brasileira - diz Manoel Ribeiro.

Como não dá para acordar imediatamente desse "pesadelo" em que se transformou o cotidiano de violência no Rio, o arquiteto Paulo Casé, por exemplo, decidiu sonhar com uma fantasia possível: uma Rocinha linda, com casas coloridas - regularizadas em cartório - de classe média, elevadores para aliviar a subida e muitas praças para lazer, com bares, mercados e farmácias. O bairro seria atração turística internacional, um novo cartão-postal do Rio.

- Para uma situação absurda como a das favelas, só uma solução futurista. Mas nada impede que vire realidade - diz o arquiteto Paulo Casé.

O engenheiro José carlos Sussekind, calculista e executor de projetos do arquiteto Oscar Niemeyer, com base em sua experiência na Linha Vermelha e em projetos de saneamento, faz um cálculo dos custos da intervenção urbanística nas favelas cariocas, levando em conta que, segundo o Censo, há 400 mil domicílios (1,6 milhão de pessoas) de favelados no Grande Rio, dos quais 75% (300 mil domicílios, 1,2 milhão
de pessoas) na cidade do Rio. Segundo ele, a urbanização deve seguir um meio-termo corajoso.

- São inaceitáveis as posturas extremas: a de que nada pode ser removido, e a oposta, de que tudo tem que ser removido. É sensato, exeqüível, vigoroso e corajoso o meio-termo realista que devemos exigir. Ninguém quer esmola, o que todos querem, inclusive e sobretudo os moradores das favelas, é emprego e segurança física — diz
Sussekind.

Ele defende a idéia de que cerca de um terço dos domicílios em favelas deve ser suprimido e reconstruído noutro local, enquanto o remanescente for urbanizado.

- O investimento necessário seria algo da ordem de R$3,3 bilhões. O número é o total de 133 mil casas populares a R$25 mil cada, já incluída, neste valor médio, a urbanização das áreas onde serão implantadas. Boa parte destes recursos voltaria aos cofres públicos, via pagamento das parcelas do financiamento, favorecido quanto a prazos, taxas etc, é claro, pelos adquirentes das casas, da qual terão título de propriedade.

Além disso, há o custo dos sistemas de transporte urbano de massa para atender eficazmente aos novos bairros com cerca de 500 mil habitantes no total, o que daria cerca de R$700 milhões. Ele prevê que, no início, linhas de ônibus, articulando esses bairros com as redes de metrô, já seriam suficientes.

- A urbanização dos dois terços de moradias restantes e das áreas remanescentes nas antigas favelas custaria cerca de R$1,5 bilhão. Mas a própria execução do programa de investimentos, a ser implantado ao longo de cinco anos, geraria mais de 50 mil novos empregos no Grande Rio. Nada gera tanto emprego quanto a construção civil. O importante seria começar por lugares ardidos e emblemáticos, como Rocinha e Vidigal...

De acordo com Sussekind, para cada comunidade (desde as pequenas até as maiores como Rocinha, Vidigal, Maré, Alemão) seria feito projeto especifico de revisão urbana total, prevendo grandes aberturas (por demolições de parte das habitações) de vazios (distâncias livres) entre grupos de habitação, para eliminar quantidades de construções grudadas, assegurando uma trama urbana e viária mínima, além de permitir circulação dos agentes públicos.

- Densidades máximas seriam fixadas para cada comunidade. O efeito gueto, inibidor da presença da lei, seria suprimido. Exemplo prático: no máximo 50% da área de solo da favela poderiam estar construídos; o que estiver a mais sai, via demolição. Não seriam toleradas construções com mais de três andares nem construções acima de determinada cota, nem construções distantes mais que determinado valor da infra-estrutura local. Seriam parâmetros objetivos, destinados a reduzir densidades já existentes.

Para o engenheiro, o pressuposto da urbanização é a descriminalização da cidade:

- É fundamental que se suprimam os postos físicos de comando e o controle dos chefes do crime, os atuais senhores feudais locais. E impedir a reinstalação de novos senhores no day after, claro. Em paralelo às supressões parciais em cada favela, os novos bairros iriam sendo construídos, com a preocupação e a atenção central à questão do transporte urbano de massa, a ligação entre moradia e local de trabalho. Unidades seriam vendidas, com financiamento em boa parte subsidiado aos novos moradores, oriundos das antigas favelas. Este financiamento seria a contribuição do governo federal, para ajudar pessoas a terem onde morar, em um bairro popular decente. O governo federal também tem obrigação de recuperar o Rio de sua atual condição de Medellin.

O arquiteto Paulo Casé faz questão de deixar claro que não é alienado, ignorante dos graves problemas sociais das favelas, ao sugerir elevadores para aliviar a subida dos morros. A solução imaginada por ele para a Rocinha poderia se estender a todas as favelas da cidade, já que seus dramas e suas misérias não podem se resolver de imediato, mas com o tempo, as novas gerações:

- A situação absurda da favela exige soluções aparentemente absurdas, como essa dos elevadores. Mas por que não?

Casé foi um dos coordenadores do Projeto Favela-Bairro no Morro da Mangueira. Dele resultou o livro "Favela". Ele diz que um dos sacrifícios dos moradores é subir morro todo dia, depois de uma pesada jornada de trabalho.

- Na Mangueira, projetamos praças para convivência e algum comércio que ficavam em alturas intermediárias para que o morador pudesse fazer uma pausa ou não precisasse descer e subir todo o morro para comprar um remédio numa farmácia. Os elevadores também teriam essas praças nos locais de acesso - diz.

É claro que antes de começar as obras, os moradores da favela precisarão ter o título de propriedade de seu imóvel para investir na sua conservação e na sua valorização. Os moradores retirados das áreas de construção de elevadores, praças e novas ruas seriam realocados em prédios de dois ou três pavimentos, em construções de qualidade, no alto da favela. Estes prédios, como mostra a fotomontagem desta página, serviriam de limite à expansão da favela. Novos gabaritos para a construção também estariam estabelecidos.

- O problema das favelas é civilizatório. Podemos transformar as favelas em bairros lindos de classe média, como a área antiga e alta de Lisboa, ou a antiga favela do Iêmen, hoje transformada em Patrimônio da Humanidade pela Unesco. As favelas do Rio podem ser pontos de atração turística, bairros lindos e criativos. Fora que os favelados se divertem muito mais que qualquer outra comunidade do planeta. Veja os suecos e dinamarqueses, por exemplo, ricos e bem-sucedidos. Quem se diverte mais, eles ou o pessoal da Rocinha? - pergunta.

A selvageria do tráfico e da polícia também seria resolvida nesse tal processo civilizatório. Os jovens, em vez de morrer aos 20 anos no tráfico, teriam acesso à escolarização e iriam preferir um ramo empresarial ao crime e à morte certa.

- Você acha que, se houver escolarização desses jovens, eles vão para o tráfico? Claro que não. Eles não são burros - imagina.

Em vários pontos, elevadores como o da cidade de Salvador, na Bahia, ligariam os níveis de acesso a praças e reduziriam o esforço da subida do morro.
A partir dessas novas praças, novas vias secundárias dariam passagens mais confortáveis às residências.
Os moradores das casas removidas para as obras de alargamento das praças e dos elevadores seriam realocados em prédios de dois ou três pavimentos no topo do morro. Essas moradias seriam de qualidade e dariam limite à expansão da favela.
As estruturas dos elevadores suportariam suprimentos de água, esgoto e coleta de lixo.

- Em Curitiba, as pessoas não gostam de viver em favelas porque o frio castiga. Normalmente, as invasões são em áreas alagadas. Então, os favelados querem ser removidos. Mas no Rio acho que elas devem ficar onde estão, corrigindo-se os problemas existentes. As experiências com remoção no Rio são terríveis, como o caso de Vila Kennedy, em que mandaram os moradores para longe e eles perderam seus vínculos.

Esse também é o pensamento do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB). Diretora da entidade, Sônia Le Coq acha que um caminho para enfrentar o problema no Rio é o governo fazer um estudo da possibilidade de aquisição das famílias e oferecer terrenos urbanizados e material de construção subsidiados, disponibilizando projetos e assistência técnica permanente para quem quiser construir.

- Somos contra a remoção, exceto para quem está em área de risco. Mas tem que haver intervenções públicas para urbanizar e estabelecer regras. É uma indignidade que, em pleno século 21, pessoas convivam com esgoto a céu aberto.

Para o diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), da UFRJ, Pablo Benetti, falta uma política habitacional concreta, que contemple o direito de as pessoas morarem onde quiserem morar:

- Uma pesquisa feita pela UFRJ mostrou que 70% das pessoas que moram em favelas gostam de morar lá e querem continuar naquele bairro. Por que o morador de uma favela tem que aceitar morar a quilômetros de distância e gastar nos transportes precários o tempo que teria para o lazer ou a família?

Num exercício com os alunos de arquitetura da UFRJ, vários professores propuseram que se estabelecesse um plano diretor para a Ilha do Fundão, onde fica a universidade, e todos esses projetos incluíram moradias nos espaços vazios da ilha.

- Assim como há vazios na Avenida Brasil e há galpões abandonados na região portuária e na antiga área industrial de São Cristóvão e Benfica, o Fundão também é um lugar próximo ao Centro que comportaria projetos habitacionais - diz Benetti. - No meu projeto, sugiro um mix de habitações para classe média e classe baixa. A habitação é uma forma de ocupação que garante o uso 24 horas por dia, e isso seria muito bom para essa região, que sofre com o isolamento e a falta de densidade, o que não permite uma rede de serviços diversificada.

História explica crescimento desordenado

Para o arquiteto Mauro Almada, da ONG ViverCidades, o problema só se resolverá quando o governo federal tomar para si a tarefa de oferecer moradias adequadas e compatíveis com a renda das classes menos favorecidas.

- A região portuária e os grandes vazios da Avenida Brasil poderiam abrigar muitas moradias, mas é preciso financiamento, e que o governo assuma isso como prioridade.

Para o historiador Antônio Edmilson Martins Rodrigues, professor da Uerj e da PUC, um erro comum à maioria dos projetos de reurbanização feitos até hoje no Rio é sempre ter privilegiado a manutenção (ou retomada) da cidade como vitrine, sem uma política pública que se importasse com as pessoas que foram expulsas das áreas. Ele diz que a remoção é boa para limpar a vitrine, mas que o poder público não se importa com os que saíram da paisagem e foram jogados para o outro lado da cidade, fora do eixo do transporte e do trabalho. Da mesma forma, quando se distribui tinta branca para pintar todos os barracos de uma favela, novamente a preocupação é com a imagem.

- Nunca houve preocupação real com essa população, mas com a retomada do espaço cheio de visibilidade que ela ocupava. Surgiu entre os excluídos uma elite dos que eram operários das fábricas da periferia, como a Bangu e a Esperança. Os que eram biscateiros no centro ficaram sem ocupação.

Nesse contexto, segundo Edmilson, a casa deixou de ter a condição de lar: para se sustentar, o sujeito vendia a laje para outro construir, e as expansões desordenadas se deram inclusive nos conjuntos habitacionais. Até os anos 50 e 60, prevalecia a idéia de que as comunidades faveladas eram mão-de-obra para as classes privilegiadas, e o receio era apenas que a proximidade desses bolsões de pobreza desvalorizasse os bons imóveis do asfalto. A partir dos anos 70, tomou-se um susto com o crescimento das favelas e a radicalização da violência nessas áreas. E aí surgiu o medo da favela.

- Somente uma política pública que de fato inclua todas essas pessoas tem chance de dar certo. Hoje qualquer intervenção precisa muito mais da vontade da sociedade civil organizada - atesta Edmilson.

Esta também é a opinião do arquiteto Alfredo Brito, professor da UFRJ e da PUC. Ele diz que, hoje, recusaria qualquer convite para realizar projetos para melhorar favelas, a menos que houvesse uma integração administrativa forte entre cidade, estado e o governo federal:

- O desrespeito pela população pobre é impressionante. Moro em Santa Teresa e conheço pessoas que vivem nas 17 favelas daqui. Elas passam por situações terríveis de miséria e pavor. Não dá nem para pensar num projeto urbanístico sem intervenção social.

O arquiteto Jaime Zettel concorda. Para ele, para resolver o problema das favelas é preciso uma intervenção social urgente e pontual, razão pela qual não se pode sequer discutir projetos urbanísticos nesta realidade atual.

Bem louco, tipo lembrei do esquema do teleférico na periferia/subúrbio da cidade de Medellin na Colombia. O Medellin Metro Cable, tipo um bondinho pagando uma de metrô de superfície, aéreo, subindo o morro, se pam estação no campinho, daquele jeito. Liga q na Colômbia a banca não fica só na conversa, 1-2 se jogaram, demorou. Maluco teve o dom de colar, tirar foto e publicar no Flickr e em blog, vai vendo:



Vi o Mundo - Concentração de renda dá ao Brasil a cara da Colômbia
Luiz Carlos Azenha

(...) O teleférico de Medellin foi o primeiro grande investimento da Colômbia oficial no mundo dos miseráveis.
Foi inaugurado há um ano e meio.

Antes, já havia sido construída uma linha de metrô ligando pela primeira vez o bairro dos ricos às comunas.
Uma forma de permitir que os servos tivessem transporte rápido até a casa dos patrões.

Feito acontece no Brasil, os colombianos endinheirados se escondem em condomínios super-protegidos, com cercas elétricas e seguranças fortemente armados.
Enquanto isso, nas comunas, Pablo Escobar cultivava aliados construindo casas, iluminando ruas, prestando serviços que o estado não prestava.
Igualzinho aos traficantes fizeram no Rio de Janeiro.
Nos bairros miseráveis Escobar recrutou os matadores que fizeram o serviço sujo em nome do cartel de Medellin - o bando que aterrorizou a Colômbia.

O serviço de teleférico transporta cerca de 30 mil pessoas por dia.
O bilhete é único: vale para o metrô e o bondinho.
Na estação que fica no topo do morro, há escola, banco e cooperativa para incentivar com empréstimos os pequenos empresários.

O prefeito de Medellin é um doutor em matemática que tem a maior taxa de aprovação entre os políticos da Colômbia.
A prefeitura investe 40% do orçamento em educação.
Deu para sentir, na comuna, o orgulho dos moradores com a obra que reduziu o crime no bairro.
Cerca de 300 mil habitantes de Medellin moram na região do teleférico.
Uma nova linha de bondinhos está sendo projetada.

A obra é um exemplo de como o estado pode ocupar espaços antes controlados pelo crime organizado.
Em Medellin, a população tem grande respeito pelo sistema de transporte integrado.
Não há lixo nos bondinhos, nem pichações no metrô.
Mas é apenas um começo.
A concentração de renda na Colômbia é escandalosa.
Pior, só mesmo no Brasil.
(...)

Liga a rima tipo arte da rua e a banca inventando narrativa aérea flutuante uscambau: Metrocable el avion de los barrios.
Quem é, é. Quem não é, cabelo avoa.
É tudo nosso. Sem miséria!

Update:
-> 4.8.2011 : O teleférico do Complexo do Alemão e transporte público para favelas e periferias

-> Arquivo: 21.3.2006 : Barraca móvel para sem-teto na Bienal de Arquitetura 2005
-> Arquivo: 12.12.2005 : Victoria Abril faz ponta no Cine Favela Heliópolis
-> Arquivo: 6.9.2005 : Festa na Favela Godoy para gravação do DVD
-> Arquivo: 2.8.2005 : TV a gato ou TV a cabo popular por R$ 15,00 por mês
-> Arquivo: 20.5..2005 : Rap no Jardim Monte Azul, 22/5/2005
-> Arquivo: 26.4.2005 : MV Bill no Roda Viva da TV Cultura
-> Arquivo : 24.9.2004 : Fundação Bauhaus, projeto urbanização da favela Jacarezinho RJ
-> Coletando : Amazon : Livros Mobile, the art of portable architecture e Anarchitecture. Architecture Is a Political Act
-> Coletando : Livraria Cultura: Livro - Favela
-> Coletando : Mercado Livre : Busca : Carrinhos ou Teleférico

15.5.06

A não representação dos afro-descendentes na História do Brasil

Liga texto de milianos no Jornal Estadão, tipo naquela levada da "história é contada pelos vencedores", tendenciosa, preconceituosa, uscambau. Sente o drama:
A História e seu poderoso agente branqueador
Como o Império e a República apagaram a presença dos negros na construção da identidade nacional
20/11/2005 - Marco Villa*

O Brasil oficial sempre teve dificuldade de conviver com os negros e mulatos. Mais ainda quando estes tinham de ser representados. Na iconografia da Independência, a presença do negro é ignorada. No quadro Independência ou Morte!, de Pedro Américo (1888), há lugar para o caipira, mas não para o negro, assim como no Proclamação da Independência, de François-René Moreaux (1844). Observando a iconografia da Guerra do Paraguai, em que boa parte dos soldados brasileiros era negra, também não se observa sua representação. Um bom exemplo é o célebre A Batalha do Avaí, de Pedro Américo (1877). Na tela de 5 por 10 metros de comprimento são representados soldados e oficiais brasileiros e paraguaios em combate: novamente os negros estão ausentes.

O Exército e a Marinha tinham nos seus quadros a presença majoritária de negros, mulatos e dos brancos pobres: era a época do recrutamento forçado. Se no caso do Exército era possível manter oficiais e soldados negros sem grandes constrangimentos para o governo, pois quando atuava no exterior resumia sua ação ao Prata, o mesmo não ocorria no da Marinha. As viagens à Europa criavam sempre problemas: onde arranjar marinheiros brancos? A fragata Constituição, que foi à Europa para trazer d. Teresa Cristina, para oficializar o casamento com d. Pedro II, ia partir no final de 1842 para Nápoles. Porém teve de adiar alguns meses a viagem – que só ocorreu no ano seguinte –, pois, como anotou na sua correspondência o embaixador austríaco Daiser, "faltavam marinheiros brancos, e não se queria mandar muitos negros".

O apagamento dos negros da iconografia entrava em contradição com sua ativa participação na política e nas artes, contrariamente do que ocorria com os índios, reconhecidos na literatura e nas artes plásticas, porém ignorados pelos governos. Uma parte da nobreza brasileira era negra ou mulata, como é o caso de Francisco Sales de Torres Homem, o visconde de Inhomirim, ministro e autor do famoso "Libelo do povo". O conde de Gobineau, que viveu no Rio de Janeiro entre 1869-1870 como embaixador da França, registrou inúmeras vezes seu desapontamento pela presença de negros e mulatos: "As melhores famílias têm cruzamentos com negros e índios. Estes produzem criaturas particularmente repugnantes, de um vermelho acobreado. A imperatriz tem três damas de honra: uma marrom, outra chocolate-claro, e a terceira, violeta".

A presença dos negros e mulatos na literatura do período é hegemônica, basta recordar o maior poeta, Gonçalves Dias, e o maior romancista, Machado de Assis. Nenhum dos dois se considerava negro ou eram assim considerados pelos amigos. No atestado de óbito de Machado, o legista não titubeou quando teve de preencher o item cor. Escreveu tranqüilamente: "branca".

O engenheiro André Rebouças, empreendedor, construtor de portos e ferrovias, era filho de um político baiano, negro. Se a referência a Rebouças é muito presente no Rio de Janeiro e em São Paulo devido ao túnel e à importante avenida, respectivamente, poucos conhecem seu retrato e sabem que ele era negro (basta fazer uma rápida pesquisa pelas duas cidades). Poderia também ser lembrado, no caso de São Paulo, do engenheiro, escritor e geógrafo Teodoro Sampaio. Nome de rua muito conhecida, é um dos raros negros lembrados, isso em uma cidade onde os logradouros públicos recebem, quase sempre, denominações de antigas famílias paulistas ou de imigrantes (recorde-se que o ex-prefeito Paulo Maluf deu a uma parte da Marginal Tietê o nome do seu sogro, do seu pai a uma avenida, da sua mãe a um túnel e do seu
tio a outra via importante, fazendo com que o trajeto de quilômetros na cidade seja realizado à sombra da família Lutfalla-Maluf).

A República, desde os seus primórdios, deixou claro seu sentimento antinegro. Afinal, entre as motivações do golpe militar de 15 de novembro estava o temor de que após a Abolição pudesse ser alterado o regime de propriedade da terra. Os negros foram expulsos do Itamaraty, assim como já tinham sido enxotados das fazendas do Oeste paulista logo após a Abolição, em um processo silencioso de "limpeza étnica". A República dos brancos, dos republicanos de 14 de maio, dos escravocratas, logo mostrou aos negros que não estava para brincadeira. Após uma rebelião, em dezembro de 1889, de marinheiros negros contra a República, muitos foram fuzilados. Em seguida o governo emitiu um decreto – o 85 A – justificando a ação: "Seria, da parte do governo, inépcia, covardia e traição deixar os créditos da República à mercê dos sentimentos ignóbeis de certas fezes sociais".

Dessa forma, não causa estranheza que no quadro de Henrique Bernardelli (1890), que recriou livremente o momento da proclamação da República, não tenha nenhum negro no Campo de Santana, e mesmo o personagem principal, Deodoro da Fonseca, foi de tal forma branqueado pelo pintor que mal parece aquele fotografado no seu estúdio da Rua do Lavradio.

No decorrer da República, a pintura histórica acabou substituída pela fotografia, como principal forma de registro dos "grandes personagens". Desde então, os negros foram sumindo ainda mais da representação oficial. Quando aparecem, estão do "outro lado", o dos vencidos, como em algumas fotos de Flávio de Barros retratando os conselheiristas, os heróicos defensores de Canudos.

Dada a importância assumida pelo futebol, suprimir os negros foi tarefa difícil. Se em 1919 havia negros na seleção que venceu o primeiro campeonato sul-americano, que foi realizado no Rio de Janeiro, três anos depois o presidente Epitácio Pessoa determinou que não fossem convocados jogadores negros, pois o torneio seria realizado em Buenos Aires e não seria recomendável o País ter entre seus representantes filhos ou netos de ex-escravos - e a seleção foi derrotada. Quando o Brasil venceu a primeira Copa do Mundo, em 1958, apesar de Didi ter sido considerado o melhor jogador do torneio, as revistas semanais, como Manchete e O Cruzeiro, deram a capa para jogadores brancos como Bellini e Gilmar.

Já com relação às mulheres, estas só podiam ser belas se fossem brancas. Nos famosos concursos de dos anos 1950-1960, todas as misses do Brasil foram brancas: Martha Rocha, Adalgisa Colombo e tantas outras. Eram os símbolos da beleza brasileira. Já as belas mulatas e negras eram reservadas para o teatro rebolado, que simbolizava a transgressão sexual, enquanto as misses (brancas) eram símbolos de pureza.

* Professor de História da Universidade Federal de São Carlos (SP), autor de Jango, um Perfil (Ed. Globo, 2004)

É embaçado ou não é?

-> Arquivo: 24.4.2006 : Marcelo Paixão da ONG Observatório AfroBrasileiro, entrevista no Estadão
-> Arquivo: 6.3.2006 : Faculdades Zumbi dos Palmares
-> Arquivo: 14.7.2005 : Reparações aos descendentes daqueles que sofreram com a escravatura, sequestro e trabalhos forçados
-> Arquivo: 11.4.2005 : Uma história não contada
-> Taba : Discursando : Nas Listas : Radinho : Re: Reconhecimento de diferenças rompe desigualdade nas escolas
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24.4.06

Marcelo Paixão da ONG Observatório AfroBrasileiro, entrevista no Estadão

Marcelo Paixão

Liga nois entrevista com economista ano passado no Jornal O Estado de São Paulo. Rimando sobre estatísticas da exclusão, ação afirmativa, cotas, privilégios e desigualdades de milianos, teve o dom. Vai vendo:
Corrida de obstáculos, só para negros
Domingo, 20 de Novembro de 2005, por Ivan Carvalho Finotti

Ao contrário do que aconteceu com os imigrantes europeus, a raça negra não é considerada parte efetiva da formação da sociedade brasileira

Um novo consenso nacional a respeito do negro no Brasil. Essa é a única saída para a desigualdade racial que assola o País há séculos, acredita o economista carioca Marcelo Paixão. Um consenso que envolva mudança dos papéis tradicionais e admita a contribuição efetiva da raça negra na formação da sociedade brasileira.

Órfão, Marcelo Paixão estudou até a 7ª série em escola pública. Terminou sua educação em escola particular paga por sua tia, funcionária pública que o criou. Formou-se em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Hoje, aos 39 anos, doutor em Sociologia e professor do Instituto de Economia da mesma UFRJ, Paixão é um defensor do sistema de cotas e, apesar de trabalhar o tempo todo com números absolutos, gosta mesmo é de interpretá-los: "Um pobre numa sociedade não tão desigual sente menos a pobreza do que uma pessoa com mais recursos numa sociedade de pronunciada desigualdade".

O economista, também coordenador da ONG Observatório AfroBrasileiro, foi um dos autores do Relatório do Desenvolvimento Humano no Brasil, da ONU, divulgado na sexta-feira. A publicação, intitulada Racismo, Pobreza e Violência, aborda as razões dessa desigualdade e sugere caminhos, como a mudança das políticas públicas.

Seu trabalho como economista é festejado por todas as organizações afro-brasileiras do País. Ao desagregar por cor e raça os três dados que medem o Índice de Desenvolvimento Humano, o IDH (escolaridade, renda per capita e expectativa de vida), Marcelo Paixão ajudou a abrir um novo campo de estudos. Em sua tese de doutorado, concluiu que, se a população branca do Brasil formasse um país à parte, ela estaria em 44º no ranking mundial do IDH, enquanto a população negra ficaria em 105º. Atualmente o Brasil está em 63º lugar, mas é sobre o fosso de 61 posições que separam o 44 do 105 que Paixão falou ao Aliás nesta entrevista publicada hoje (20/11/2005), no Dia da Consciência Negra.

Quais as novidades do Relatório de Desenvolvimento Humano 2005, divulgado na sexta-feira?
O tema mais importante é um convite para uma mudança do perfil das políticas públicas para a área social do Brasil. O discurso dessas políticas sempre foi generalista, ou seja, voltado para todos. Se fosse voltado para todos, não deveria haver discriminação ou desigualdade no saneamento, distribuição de água, energia elétrica, localização de hospitais etc. O discurso é nobre, mas não funciona. É preciso ver como alguns grupos da sociedade se apropriam dos recursos públicos. Quando analisamos as desigualdades raciais no acesso a escola, saúde, coleta de lixo, esgoto, vemos que um grupo se beneficia mais que outro. A política pública, assim, aprofunda o problema.

E como combater isso?
Reorientar os investimentos para áreas mais pobres de modo que os serviços públicos possam ser equalizados. Sob o ponto de vista dos indicadores sociais, a população negra vai ter um benefício, porque está concentrada nessas áreas. Há outras formas, mais qualitativas.

Quais são elas?
Sabemos que as desigualdades sociais na educação são muitas vezes produzidas por conta de condições desiguais para acessar o ensino. Crianças pobres saem da escola mais cedo que as ricas. Por outro lado, também sabemos que muitas vezes o que afasta as crianças pobres não é só o fator econômico. É também o desalento, o fato de que o ambiente em sala de aula é pouco propício para que os alunos sejam diversos em origens ou em formas físicas. Constrói-se um padrão estereotipado que tem efeitos difíceis de ser quantificados, mas são cruéis. Enfim, as políticas de promoção da igualdade racial estão ligadas às políticas de combate à pobreza. Podem ser instrumentos importantes para a reversão de um cenário de desigualdade que, a rigor, se perpetua secularmente. E esse secularmente jamais pode ser considerado um tema menor. Temos de nos lembrar que esse país tem uma população descendente de escravos desassistida há gerações.

Há quatro anos, a renda familiar do branco era de 2,64 salários mínimos e a do negro, de 1,15. Isso mudou?
Em termos de valor absoluto, as rendas aumentaram, acompanhando a inflação. Mas vou ser um pouco subjetivo, sem me ater aos números. O que importa é que a desigualdade relativa se manteve. E as diferenças relativas é que importam.

Por quê?
Falo brincando na sala de aula que não ter sapato em 1900 é diferente de não ter sapato em 2005. O sentimento de privação relativa é tão importante quanto as realidades da privação absoluta. Uma pessoa pode ser pobre, mas, se vive numa sociedade não tão desigual, essa pobreza pode ser pouco sentida. Já alguém com mais recursos, mas numa sociedade de pronunciada desigualdade, vai se sentir pobre. Essa pessoa pode não ter a pobreza absoluta, mas tem a relativa. Na Rocinha ou em outras favelas do Rio de Janeiro, as casas têm TV, rádio, geladeira. No entanto, por que as pessoas vivem em situação muito precária, muito vulnerável? É também por conta do sentimento de privação relativa. Elas não têm acesso a um conjunto de bens e a um conjunto de direitos sociais que uma parcela significativa da população tem.

O senhor acredita que um dia o negro brasileiro terá índices socioeconômicos semelhantes aos do branco?
A questão racial vai além de ser um problema do negro. Na sociedade brasileira, temos de pensar que os negros estão inseridos em uma coletividade e os indicadores sociais são produzidos a partir da relação de um grupo com os outros. Então, quando falamos "o problema do negro", prefiro dizer "o problema das relações raciais no Brasil".
Quem ensinou isso de uma forma cabal foi o movimento feminista, que conseguiu elevar o debate das relações entre sexo para um debate sobre gêneros. Isso remete às posições e papéis sociais que um grupo forja em relação ao outro, as expectativas, as barreiras que vão sendo criadas por um grupo em relação ao outro. Então, não existe no Brasil um problema do negro, mas das relações raciais.

Minha pergunta, então, foi preconceituosa?
Não chegaria a tanto. É uma pergunta que é feita a mim o tempo todo. Ela corresponde a um senso comum desse debate.

Sim, mesmo porque o trabalho do senhor, ao separar os dados das populações brancas e negras, remete à idéia de igualar esses índices.
Sim, mas essa parte da pergunta, a de igualar as condições, está correta. O erro está em imaginar "o negro irá conseguir?" Não é questão de conseguir. Será necessário um novo consenso nacional sobre isso.

Como assim?
Pense no que foi o processo de integração dos imigrantes no Brasil. Eles tinham problemas de sobrevivência nos países de origem para vir trabalhar em cafezais ou fábricas, porque ninguém emigra porque quer. Agora, os italianos, japoneses e alemães estão perfeitamente integrados na sociedade brasileira. Chegaram aqui analfabetos, muitos sem qualificação, mas o que foi acontecendo? Um processo de convencimento no interior da sociedade brasileira – principalmente por parte das elites e dirigentes, que pensam estrategicamente –, que aquele contingente, independentemente de ter um nível de qualificação profissional tão reduzido, tinha contribuições efetivas a dar na formação da sociedade brasileira. E aí foram aceitos nas fábricas, posteriormente aceitos como gerentes e posteriormente ainda como donos das empresas.

E os negros?
Platão, em A República, dizia que as mulheres tinham de ser plenamente aproveitadas porque uma república que não utilizasse a potencialidade das mulheres seria como uma pessoa com apenas uma perna. É o que digo em relação aos negros. Mudar as relações entre os grupos raciais muda a maneira de os grupos se inserirem no todo social. Feito isso, a tendência é de os indicadores se igualarem.

As ações afirmativas, como a política de diversidade que algumas empresas adotam e a política de cotas nas universidades, já são entendidas pela população brasileira?
Vamos dividir essa pergunta. O primeiro tópico é que a política de ação afirmativa implica tratar os desiguais desigualmente para corrigir as desigualdades existentes. Vou dar exemplos: o imposto de renda progressivo, que significa que quem ganha mais paga maior imposto. As legislações que beneficiam as pequenas e médias empresas.
Filas para portadores de deficiências nos bancos. Como se vê, a ação afirmativa é um princípio já conhecido de todos os brasileiros e de todo o mundo moderno. O que talvez seja menos conhecido sejam ações afirmativas voltadas para grupos da população como mulheres ou negros.
No primeiro caso, temos por exemplo a lei eleitoral que reserva 30% das vagas de candidaturas nos partidos políticos para mulheres. Em relação à questão racial é que reside o problema.

Por quê?
Porque, quando envolve a questão racial, a ação afirmativa significa mudança de papéis sociais tradicionais que muitas vezes se encontram normatizados. Sobre as cotas: as pessoas não se acostumaram a ver negros nas profissões de médico, engenheiro, professor universitário e outras posições de maior prestígio social, e por isso passaram a acreditar que isso é o normal da vida. E não é. Então uma proposta dessas acaba encontrando resistência. Também acho que é uma medida impactante porque é não-voluntária. As universidades foram obrigadas a abrir as portas para um público que estava tradicionalmente excluído e, aliás, se a medida não fosse adotada, continuaria excluído para todo o sempre.

E há meios menos impositivos?
As empresas em geral fazem uma política voluntária. Eu acredito que, neste momento, teremos uma proliferação de medidas, de propostas de superação do quadro das desigualdades raciais. Algumas medidas serão mais impositivas, como é o caso das cotas, outras serão voluntárias, como é o caso de diversas empresas. Elas vêm operando políticas ativas de diversidade porque consideram que isso tem um caráter ético muito importante, porque estão cada vez mais abertas ao tema da responsabilidade empresarial, porque isso pode trazer uma imagem positiva e também porque percebem que pode ser mais lucrativo diversificar seu corpo de funcionários.

O senhor dá aulas para algum aluno cotista?
Infelizmente não. Na UFRJ não existe a política de cotas. Percebo até que há uma resistência muito grande por parte do corpo docente. Mas meu papel, além de ser um pesquisador e um professor, é procurar convencer as pessoas, sempre tentando colocar a racionalidade da proposta. As cotas não visam destruir a universidade, reduzir sua qualidade ou dizer que o princípio do mérito é desprezível. Nada disso. Só não acho que meritocracia e diversidade sejam excludentes.

Até que ponto a política de cotas será eficiente num sistema que é injusto desde o início? Por que não brigar por um sistema de qualidade que venha do ensino fundamental?
Acho que a política de cotas deve ser complementada com políticas de melhora de ensino público. Em relação às cotas, não existe a intenção de pôr na universidade pessoas despreparadas. Existem notas de corte.
Eu próprio não corrijo prova de aluno de forma mais leniente por conta de condições econômicas. Esse princípio tem de estar consagrado. Mas, quando analisamos os que foram classificados pelo vestibular, encontro em geral uma camada de ótimos alunos que vieram das redes privadas ou dos públicos federais. Existe, depois, o nível intermediário, no qual as notas entre aquele que se classificou e o que não se classificou são muito parecidas. Muitas vezes há o ingresso de um aluno que veio das escolas privadas, que teve oportunidade de fazer cursinho e aula de inglês e tirou 6,5. E um aluno de escola pública, pobre ou negro, que enfrentou preconceito, racismo, pobreza e talvez tenha de ter trabalhado enquanto estudava, tirou 6,3. Ele não entra porque a nota de corte é 6,4. Do ponto de vista do princípio da justiça, eu
pergunto: o critério está certo? Acho que não. Ao contrário. Um aluno negro e pobre que consegue enfrentar tantos desafios na vida e ser classificado numa prova de vestibular da UFRJ, da USP ou da Unicamp, um aluno desses tem de ser aproveitado. Se não for, nós o estamos condenando ao desalento. Estamos transformando pessoas que poderiam ser bons médicos, bons engenheiros, bons economistas, em profissionais com posições inferiores na sociedade.

Mas é possível traçar essa linha de forma justa?
É uma operação matemática complexa, mas hoje essa linha é traçada. Quem tirou 6,5 entra.Quem tirou 6,3 não. Pouco importa se o primeiro é um rico medíocre e o segundo é um pobre brilhante. Isso é complexo? É. Mas uma pessoa que nasce na favela e consegue, após 11 anos de estudos, prestar um vestibular é um herói nacional sem reconhecimento.
E depois de tudo isso, por causa de um ou dois décimos de nota, damos adeus para ele? Não é assim que esse país deve funcionar.

O que o senhor acha da lei que deve tornar obrigatório o estudo de História Afro-Brasileira no ensino fundamental e médio?
É importante porque diz respeito à maneira como a população brasileira vai tomar conhecimento da própria história. Nosso maior valor é a diversidade. Todo mundo sabe disso. Todo mundo sabe que a seleção brasileira não poderia ser feita só por negros ou só por brancos. E, se essa diversidade é um valor, ele deve estar expressado nos cursos escolares.

Demorou.

-> Arquivo: 4.10.2005 : Cotas para afrodescendentes nas empresas e corporações
-> Arquivo: 24.8.2005 : Arnaldo Jabour x MV Bill no Flip 2005
-> Arquivo: 14.7.2005 : Reparações aos descendentes daqueles que sofreram com a escravatura, sequestro e trabalhos forçados
-> Arquivo: 11.4.2005 : Uma história não contada
-> Taba : Discursando : Nas Listas : Radinho : Re: Reconhecimento de diferenças rompe desigualdade nas escolas
-> Coletando : Mercado Livre : Busca : Tim Maia e Candomble
-> Coletando : Livraria Cultura: Livro - Uma história não contada. Negro, racismo e branqueamento em São Paulo.
-> Compartilhando Banners : CDs Nada como um dia após o outro dia e Antigamente quilombos, hoje periferia.

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