15.5.06

A não representação dos afro-descendentes na História do Brasil

Liga texto de milianos no Jornal Estadão, tipo naquela levada da "história é contada pelos vencedores", tendenciosa, preconceituosa, uscambau. Sente o drama:
A História e seu poderoso agente branqueador
Como o Império e a República apagaram a presença dos negros na construção da identidade nacional
20/11/2005 - Marco Villa*

O Brasil oficial sempre teve dificuldade de conviver com os negros e mulatos. Mais ainda quando estes tinham de ser representados. Na iconografia da Independência, a presença do negro é ignorada. No quadro Independência ou Morte!, de Pedro Américo (1888), há lugar para o caipira, mas não para o negro, assim como no Proclamação da Independência, de François-René Moreaux (1844). Observando a iconografia da Guerra do Paraguai, em que boa parte dos soldados brasileiros era negra, também não se observa sua representação. Um bom exemplo é o célebre A Batalha do Avaí, de Pedro Américo (1877). Na tela de 5 por 10 metros de comprimento são representados soldados e oficiais brasileiros e paraguaios em combate: novamente os negros estão ausentes.

O Exército e a Marinha tinham nos seus quadros a presença majoritária de negros, mulatos e dos brancos pobres: era a época do recrutamento forçado. Se no caso do Exército era possível manter oficiais e soldados negros sem grandes constrangimentos para o governo, pois quando atuava no exterior resumia sua ação ao Prata, o mesmo não ocorria no da Marinha. As viagens à Europa criavam sempre problemas: onde arranjar marinheiros brancos? A fragata Constituição, que foi à Europa para trazer d. Teresa Cristina, para oficializar o casamento com d. Pedro II, ia partir no final de 1842 para Nápoles. Porém teve de adiar alguns meses a viagem – que só ocorreu no ano seguinte –, pois, como anotou na sua correspondência o embaixador austríaco Daiser, "faltavam marinheiros brancos, e não se queria mandar muitos negros".

O apagamento dos negros da iconografia entrava em contradição com sua ativa participação na política e nas artes, contrariamente do que ocorria com os índios, reconhecidos na literatura e nas artes plásticas, porém ignorados pelos governos. Uma parte da nobreza brasileira era negra ou mulata, como é o caso de Francisco Sales de Torres Homem, o visconde de Inhomirim, ministro e autor do famoso "Libelo do povo". O conde de Gobineau, que viveu no Rio de Janeiro entre 1869-1870 como embaixador da França, registrou inúmeras vezes seu desapontamento pela presença de negros e mulatos: "As melhores famílias têm cruzamentos com negros e índios. Estes produzem criaturas particularmente repugnantes, de um vermelho acobreado. A imperatriz tem três damas de honra: uma marrom, outra chocolate-claro, e a terceira, violeta".

A presença dos negros e mulatos na literatura do período é hegemônica, basta recordar o maior poeta, Gonçalves Dias, e o maior romancista, Machado de Assis. Nenhum dos dois se considerava negro ou eram assim considerados pelos amigos. No atestado de óbito de Machado, o legista não titubeou quando teve de preencher o item cor. Escreveu tranqüilamente: "branca".

O engenheiro André Rebouças, empreendedor, construtor de portos e ferrovias, era filho de um político baiano, negro. Se a referência a Rebouças é muito presente no Rio de Janeiro e em São Paulo devido ao túnel e à importante avenida, respectivamente, poucos conhecem seu retrato e sabem que ele era negro (basta fazer uma rápida pesquisa pelas duas cidades). Poderia também ser lembrado, no caso de São Paulo, do engenheiro, escritor e geógrafo Teodoro Sampaio. Nome de rua muito conhecida, é um dos raros negros lembrados, isso em uma cidade onde os logradouros públicos recebem, quase sempre, denominações de antigas famílias paulistas ou de imigrantes (recorde-se que o ex-prefeito Paulo Maluf deu a uma parte da Marginal Tietê o nome do seu sogro, do seu pai a uma avenida, da sua mãe a um túnel e do seu
tio a outra via importante, fazendo com que o trajeto de quilômetros na cidade seja realizado à sombra da família Lutfalla-Maluf).

A República, desde os seus primórdios, deixou claro seu sentimento antinegro. Afinal, entre as motivações do golpe militar de 15 de novembro estava o temor de que após a Abolição pudesse ser alterado o regime de propriedade da terra. Os negros foram expulsos do Itamaraty, assim como já tinham sido enxotados das fazendas do Oeste paulista logo após a Abolição, em um processo silencioso de "limpeza étnica". A República dos brancos, dos republicanos de 14 de maio, dos escravocratas, logo mostrou aos negros que não estava para brincadeira. Após uma rebelião, em dezembro de 1889, de marinheiros negros contra a República, muitos foram fuzilados. Em seguida o governo emitiu um decreto – o 85 A – justificando a ação: "Seria, da parte do governo, inépcia, covardia e traição deixar os créditos da República à mercê dos sentimentos ignóbeis de certas fezes sociais".

Dessa forma, não causa estranheza que no quadro de Henrique Bernardelli (1890), que recriou livremente o momento da proclamação da República, não tenha nenhum negro no Campo de Santana, e mesmo o personagem principal, Deodoro da Fonseca, foi de tal forma branqueado pelo pintor que mal parece aquele fotografado no seu estúdio da Rua do Lavradio.

No decorrer da República, a pintura histórica acabou substituída pela fotografia, como principal forma de registro dos "grandes personagens". Desde então, os negros foram sumindo ainda mais da representação oficial. Quando aparecem, estão do "outro lado", o dos vencidos, como em algumas fotos de Flávio de Barros retratando os conselheiristas, os heróicos defensores de Canudos.

Dada a importância assumida pelo futebol, suprimir os negros foi tarefa difícil. Se em 1919 havia negros na seleção que venceu o primeiro campeonato sul-americano, que foi realizado no Rio de Janeiro, três anos depois o presidente Epitácio Pessoa determinou que não fossem convocados jogadores negros, pois o torneio seria realizado em Buenos Aires e não seria recomendável o País ter entre seus representantes filhos ou netos de ex-escravos - e a seleção foi derrotada. Quando o Brasil venceu a primeira Copa do Mundo, em 1958, apesar de Didi ter sido considerado o melhor jogador do torneio, as revistas semanais, como Manchete e O Cruzeiro, deram a capa para jogadores brancos como Bellini e Gilmar.

Já com relação às mulheres, estas só podiam ser belas se fossem brancas. Nos famosos concursos de dos anos 1950-1960, todas as misses do Brasil foram brancas: Martha Rocha, Adalgisa Colombo e tantas outras. Eram os símbolos da beleza brasileira. Já as belas mulatas e negras eram reservadas para o teatro rebolado, que simbolizava a transgressão sexual, enquanto as misses (brancas) eram símbolos de pureza.

* Professor de História da Universidade Federal de São Carlos (SP), autor de Jango, um Perfil (Ed. Globo, 2004)

É embaçado ou não é?

-> Arquivo: 24.4.2006 : Marcelo Paixão da ONG Observatório AfroBrasileiro, entrevista no Estadão
-> Arquivo: 6.3.2006 : Faculdades Zumbi dos Palmares
-> Arquivo: 14.7.2005 : Reparações aos descendentes daqueles que sofreram com a escravatura, sequestro e trabalhos forçados
-> Arquivo: 11.4.2005 : Uma história não contada
-> Taba : Discursando : Nas Listas : Radinho : Re: Reconhecimento de diferenças rompe desigualdade nas escolas
-> Coletando : Mercado Livre : Busca : Jorge Benjor e Candomble
-> Coletando : Livraria Cultura: Livro - Uma história não contada. Negro, racismo e branqueamento em São Paulo.
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3 comentários:

Jônatas Gardin disse...

Estava lendo aquela revista História recentemente e lá dizia que existiam projetos avançados para reforma agrária e reparação contra os negros.

Todos os projetos estavam sendo levados pela Princesa Isabel e pelo ministério até que houve a proclamação da república.

Infelizmente perdeu-se essa oportunidade e o clima, que era propício para a reparação na época.

Tupi disse...

Falai Jonatas, mas nem, nunca e' tarde pra essa fita inclusiva, reparação, uscambau. Ainda dá tempo do país encarar a treta. Demorou!
Sem justiça não há paz.

lizinha disse...

ah, sei lá... acho q não tem nada a ver com cor, mas com classe social! Por um acaso, nas Oropa, eles se preocupam em contar a História do pto de vista dos camponeses??? claro q não! quem morreu nas batalhas não interessa, só quem eram os reis, os generais...
isso é assin no mundo todo, tb nos países negros, se é q contada a História, é sempre com os reis e os chefes das tribos como protagonistas.

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