Natal Reciclado, árvore feita com revista usada. Foto de Brincos de Princesa no Flickr
Liga rima bem louca do tiozinho J. A. Dias Lopes contando como nasceu a árvore natalina, se pam até o natal mesmo, maior esquema da igreja católica, cristã, sei lá, tipo dando um cato nos cultos pagãos, xamanistas, animistas, uscambau. Tipo reciclagem, 171, bota uma fé? Liga a matéria q saiu no suplemento Paladar do jornal O Estado de São Paulo ano passado, olha a conversa:
O batismo da árvore de Natal
15/12/2006 - J. A. Dias Lopes
Celebração familiar, quase sempre doméstica, o Natal reforça os laços de fraternidade entre as pessoas e transcorre geralmente ao lado de uma árvore natural ou falsa, decorada com estrelas, luzes, pinhas, pássaros, flores, frutas, miniaturas de casas, aves ou peixes, entre outros. Em volta da planta, colocam-se os presentes a serem trocados pelas pessoas, entre abraços e beijos, antes ou depois da ceia generosa, repleta de pães à base de ovos ou ingredientes requintados, e carnes recheadas com miúdos, passas, nozes, amêndoas e farofas.
Impossível imaginar o aniversário do fundador do cristianismo sem esses adereços. Mas poucos sabem que a árvore e os presentes do Natal têm origem pagã. Em nenhum de seus 27 livros o Novo Testamento se refere à festa, sequer informa o dia do nascimento de Jesus. Os estudiosos da Bíblia, porém, concluem que não ocorreu a 25 de dezembro, primeiro mês do inverno no hemisfério norte. A dedução se ampara em pistas fornecidas pelos textos sagrados. O Novo Testamento fala de pastores que, no nascimento do fundador do cristianismo, apascentavam ovelhas, uma prática interrompida nos meses do frio.
Por que, então, celebra-se o Natal a 25 de dezembro? A data foi oficializada na metade do século 4, pelo papa Júlio I (337 a 352). Vários povos antigos, inclusive
os romanos, adoravam na ocasião o propalado poder divino do sol. Comendo e bebendo, comemoravam o solstício de inverno – o momento em que a estrela em torno da qual a Terra gira atinge a maior distância angular sul do equador celeste.
Não conseguindo eliminar o culto popular, Júlio I decidiu incorporá- lo. Tomou uma decisão esperta. Os cristãos passaram a celebrar o nascimento de Jesus a 25 de dezembro e o solstício de inverno acabou sendo ofuscado pela nova comemoração.
A árvore sofreu o mesmo processo de batismo. Foi assimilada por ser uma idolatria indestrutível. Enraizada no solo, ereta e projetada para o alto, estabelecia
simbolicamente a ligação entre a terra e o além. Velhas mitologias a invocavam para representar a vida do cosmos, o crescimento, a multiplicação e a regeneração da natureza. Associavam-na a entidades imaginárias, divinas ou não.
Entre os egípcios, o cedro era relacionado a Osíris; os gregos ligavam o abeto a Átis, a azinheira a Júpiter, o loureiro a os germânicos colocavam presentes sob o carvalho sagrado de Odin, para as crianças pegarem e sorrirem. Às vésperas do solstício de inverno, os pagãos da Europa do Norte, especialmente da região compreendida pelos atuais territórios da Letônia, Lituânia e Estônia, embrenhavam-se nos bosques e cortavam pinheiros. Transportavam-nos às casas e os colocavam em vasos
de terra, exatamente como acontece agora; enfeitavam nos com guirlandas, ovos pintados e pequenos doces; por último, cantavam e dançavam em torno dos pinheiros ornamentados. Saudavam tanto o fenômeno astronômico como as colheitas obtidas no ano que findava.
A tradição foi incorporada por outros povos, especialmente pelos germânicos. No início do século 8, quando o monge beneditino anglo-saxão Bonifácio foi autorizado pelo papa Gregório II a trabalhar como missionário na Turíngia, Alemanha central, o então futuro santo católico se deparou com o culto generalizado da árvore. Primeiro, combateu-o duramente. Chegou a empunhar o machado e abater uma árvore sagrada erguida no topo de um monte, para mostrar a inexistência dos deuses pagãos. Depois, passou a invocar o perfil triangular do abeto como Símbolo da Santíssima Trindade.
Ao mesmo tempo, São Bonifácio constatou que árvores como o pinheiro, por exemplo, têm folhas perenes e resistentes. Assim, lembrariam Jesus, fonte da vida eterna. Os alemães adotaram facilmente a árvore do Natal. Acrescentaram-lhe frutas, doces, velas e flores de papel colorido – as brancas para representar a inocência; as vermelhas, o conhecimento. Além disso, difundiram-na internacionalmente.
A Inglaterra conheceu a novidade no século 17, através da família real, quando Sofia, neta do rei Jaime II, casou com o duque alemão Ernesto Augusto. Um dos filhos do casal ocupou o trono da Grã-Bretanha, assumindo o título de Jorge I. Nasceu, assim, a casa real britânica de Hannover, que chegou até a rainha Vitória. Não por acaso, esta soberana, que era casada com um alemão, o príncipe consorte Alberto, ajudou a popularizar a árvore de Natal. Os puritanos criticavam a presença da planta na evocação do nascimento de Jesus. Em 1848, porém, a revista Illustrated London News publicou uma gravura na qual a rainha Vitória, o marido e os filhos apareciam no interior do castelo de Windsor em torno de uma enorme árvore de Natal. Tudo o que a rainha Vitória fazia ditava moda. Enfraqueceram-se as resistências.
Na França, a novidade chegou em 1840, por iniciativa da princesa alemã Helena de Mecklemburgo, mulher do duque de Orleans. Portugal e Brasil foram adeptos ainda mais tardios. Hoje, em nosso país, o cristão que não a tiver em casa a 25 de dezembro estará realizando uma festa sem graça.
Sentiu firmeza? A árvore sagrada teve o dom de ficar de pé até hoje. Molecada reunida, presente, champanhe, a vida é louca. Uma pá de luzinha chinesa, paganismo, panetone, amigo oculto, bruxaria, uscambau.
Pode crer, tá valendo!
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